Desculpe o Transtorno. Precisamos falar sobre dor.


POR Ruth Alves
Maio de 2015. Porto Velho, Rondônia. Era cerca de 21h. Eu era uma das últimas pacientes do dia. Depois de 5h de espera, finalmente eu entenderia o que estava acontecendo com meu olho. A resposta? Não foi uma das melhores. Descobri que eu haveria de enfrentar um intenso tratamento de três meses, com pílulas e um colírio. O pior era não ter a certeza do que aconteceria com meu olho e meu organismo durante esse tempo. Quando o doutor nos informou que eu corria risco de perder a visão, foi como se o mundo tivesse desabado sobre mim.
Confesso que fiquei sem reação, por algum momento. Eu não sabia se chorava, se ficava quieta, se eu fazia mais perguntas ao doutor... eu realmente não sabia o que fazer. Como poderia reagir ante uma notícia dessa? Mas uma das perguntas “automáticas” que vieram à minha mente foi: “porque eu? ”. E essa é uma das perguntas – ou talvez a pergunta – mais frequente que vem a mente de qualquer pessoa quando está diante de uma situação complicada como essa. Porém, graças a Deus, temos o Espírito Santo para nos lembrar de que isso pode ocorrer com qualquer pessoa, e principalmente com qualquer Cristão. Foi o que ele fez naquele dia comigo.
Às vezes temos a impressão errada de que, por sermos salvos, seremos blindados de qualquer situação complicada. Qualquer doença, qualquer perda, qualquer dor ou sofrimento. E isso, meus caros, é totalmente fora da realidade que vivemos, e totalmente fora do que a própria palavra de Deus nos alerta. A dor que eu sentia era além da dor física: era a dor da incerteza, do sofrimento, de uma possível perda que eu teria. E quantas vezes isso acontece. Ficamos chateados com nós mesmos e pensamos que Deus não poderia ser glorificado através daquela dor que enfrentamos. “O que foi que eu fiz pra merecer isso? ”. “Sou cristã. Isso jamais deveria acontecer!!!”. “Deus, o que está acontendo? ”. São possíveis perguntas.
Infelizmente, a igreja não tem alertado com frequência sobre a dor. Diga-se de passagem, é um tema bastante evitado. O que se prega hoje é prosperidade, vitória, autoajuda, etc. “Determine a vitória em sua vida!!!”. “A partir de hoje, sua vida será sempre vitoriosa! ”. Eu já ouvi dizerem que “um Cristão não pode ficar doente”, ou que “a dor não faz parte da vida de um Cristão”. E por causa de declarações como essas, muitos estão despreparados para as dores da vida. É aquela coisa: “se meu pastor falou, nem preciso consultar a Bíblia, já que ele é homem de Deus mesmo... Não vou passar mais por dores! Oh glória! EU DETERMINO ISSO NA MINHA VIDA! “.
Não, meus caros. Não é assim que funciona. Ah, se a vida Cristã nos blindasse disso, seria muito fácil viver uma vida de comunhão com Deus, não seria? Deixa eu esclarecer algumas coisas (que, diga-se de passagem, Deus as esclareceu pra mim nessa situação que vivi).




1) A SALVAÇÃO NÃO NOS PRIVA DE DORES
Quando me refiro a “dor”, é no amplo sentido da palavra. Seja ela física ou emocional. Doença ou alguma situação complicada que você esteja vivendo. O Sangue de Jesus “nos purifica de todo o pecado” (I João 1:7), mas não confunda isso com uma possível blindagem de tudo. O próprio Senhor Jesus nos alerta: “no mundo tereis aflições (...)” (João 16:33a). Podemos enfrentar uma crise financeira, um tratamento de doença, a perda de um ente querido... infinitas situações. Consulte os exemplos dos nossos heróis da fé, meditando em Hebreus 12. Homens irrepreensíveis, muitíssimo usados por Deus e que não foram blindados de sofrimentos.

2) DEUS É GLORIFICADO NA DOR
Para entender a soberania de Deus, experiências são necessárias. E Deus, com sua sabedoria e graça, nos permite ter essas experiências. Como teremos testemunho se formos privados de dores e sofrimentos? Como poderemos pregar sobre consolo se nunca tivermos enfrentado lutas? Podemos entender isso melhor ao lermos IPedro 1.6-7:

“Nisso exultais, embora, no presente, por breve tempo, sejais contristados por várias provações" - IPedro 1:6

Nossa, Ruth. Que Deus é esse? Por que permitiria tamanho sofrimento a seus filhos? Que absurdo! É, talvez você possa se questionar dessa forma. Mas deixe-me te mostrar o que Ele me ensinou naquele mesmo dia que eu estava no oftalmologista.
Eu precisava de experiências de fé. Deus determinou aquele momento, com sua soberania, para que eu aprendesse a ser dependente dele. Sabe o que é isso? É amor de PAI.

“Para que, uma vez confirmado o valor da vossa fé, muito mais preciosa do que o ouro perecível, mesmo apurado por fogo, redunde em louvor, glória e honra na revelação de Jesus Cristo” - I Pedro 1:7

 O Senhor queria que a vida dele fosse ainda mais refletida em mim, por isso utilizou essa dor. Minha fé precisava “ser apurada por fogo” e, assim como a minha, a sua também precisará. Uma querida irmã em Cristo pode traduzir muito bem isso:

“É difícil, por vezes, pensar que um pai que diz nos amar também nos jogue no fogo. Nós temos uma mente muito limitada, muito humana. Não conseguimos entender amor que não se traduza em puro cuidado. Mas o amor de Deus é muito mais complexo e cheio de camadas, incompreensível a pobre mente humana”. - Francine Veríssimo Wash 

3) ELE NOS CONSOLARÁ EM MEIO A DOR
Lembra de João 16.33? “No mundo tereis aflições...”. Teremos sim, teremos inúmeras. Mas não podemos nos esquecer dessa promessa tão preciosa: “... mas tenham bom ânimo, pois EU VENCI O MUNDO!. SIM! Ele já venceu! E por ter vencido, ele nos ajudará a vencer também. Meus amigos, não foi fácil para mim viver tudo isso. Mas permanecer em fé vale muito a pena, pois eu pude sentir o consolo de Deus em cada dia de tratamento. O Espirito Santo me recordava dos momentos em que o Senhor promete consolo através de sua palavra:

“Não se turbe o vosso coração, crede em Deus, crede também em mim” - João 14.1

 “Em tudo somos atribulados, porém não angustiados. Perplexos, porém não desanimados; perseguidos, porém não desamparados; abatidos, porém não destruídos (...) Porque a nossa leve e momentânea tribulação produz para nós ETERNO peso de glória, acima de toda a comparação” - II Coríntios 4:8-9, 17

 “As misericórdias do Senhor são a causa de não sermos consumidos, porque as suas misericórdias não tem fim; renovam-se cada manhã. Grande é a tua fidelidade” - Lamentações 3:22-23)

"Se me amais, guardai os meus mandamentos. E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador, para que fique convosco para sempre; O Espírito de verdade, que o mundo não pode receber, porque não o vê nem o conhece; mas vós o conheceis, porque habita convosco, e estará em vós. Não vos deixarei órfãos; voltarei para vós. Ainda um pouco, e o mundo não me verá mais, mas vós me vereis; porque eu vivo, e vós vivereis." - João 14:15-19 

Naquele dia, uma paz inexplicável invadiu meu coração. Era a "paz que excede todo o entendimento. E eu tive a certeza de que sim, estou sujeita a dores. Mas isso tudo é para o meu bem (Romanos 8.28), e Ele será glorificado nisso. E SIM, ele me consolará! E consolou!
Bom.. Não foram somente três meses. Em agosto descobri que precisaria de mais três meses de tratamento. Mas o consolo Dele veio. Em Novembro de 2015 parei de tomar os remédios. E hoje, para honra e glória do Senhor, estou com 1 ano e 3 meses sem tomar as pílulas! DEUS É MUITO BOM!
Gostaria de encerrar esse texto com as palavras da irmã Francine:

“Por vezes Deus não nos tira do fogo, mas assim como fez com Sadraque, Mesaque e Abede-Nego, se coloca ao nosso lado em meio às chamas. (...) 
Esse é o belo e excruciante paradoxo da vida cristã. E que privilégio é sofrer por Cristo!”. 

Que Deus te abençoe! Sigamos firmes em Cristo!

Blog Archive

TOP 10