Apologética?

Apologética?

Por: Kelvin

Sendo este meu post de inauguração neste blog, gostaria de falar um pouco sobre essa área da religião cristã que costuma não receber sua merecida atenção: a Apologética.

Afinal, o que é? Do grego
απολογία, apologia – “defesa verbal”, a Apologética é o ramo da Teologia que busca prover justificação racional para a fé no Cristianismo. Apesar de ser uma disciplina teórica, sua aplicação prática inclui demonstrar para o descrente a racionalidade da crença em Deus, bem como uma reconfirmação para a fé daquele que já crê.

Alguém pode objetar: “Mas para quê isso? Ninguém encontra Cristo por argumentos, afinal, religião é fé. Só o que precisamos fazer é pregar a mensagem.” Essa forma de pensar é extremamente limitada e estreita. Imagine que você está caminhando para o trabalho/universidade, em uma grande cidade brasileira do século XXI, e de repente, um hinduísta vestido conforme a tradição indiana apareça e comece a tentar pregar-lhe a mensagem do Hinduísmo e dos Vedas. Seria, no mínimo, estranho, e isso não ajudaria o evangelista em nada, pois o choque cultural imediatamente traria à tona os preconceitos culturais de sua mente. Igualmente, num contexto mundial cada vez mais secularizado, há preconceitos que deixam as pessoas vacinadas contra qualquer tipo de mensagem cristã, e o evangelista que ignorar este contexto estará fadado ao fracasso. O legado positivista de exaltação à “razão” e ao saber científico sobre os outros tipos de conhecimento, junto com as má-interpretações e deturpações sobre o que é o Cristianismo constituem um entrave à aceitação de nossa crença.

Além disso, a Apologética tem um papel importante no fortalecimento da fé do ‘crente’. O evangelismo contemporâneo tende a concentrar-se na intimidade emocional com Deus; e, embora esta seja uma coisa boa, as emoções não poderão levar o ‘crente’ muito longe. Após isto, se ele quiser permanecer fiel à sua crença, precisará de algo mais substancial, a justificação racional. Quem simplesmente embarca na montanha-russa da experiência emocional está roubando de si mesmo o direito de uma compreensão mais rica e profunda do lado intelectual da fé cristã. Entretenimento e atividades devocionais não são suficientes para aquele que ao sair do casulo protetor de seu contexto religioso irá ter suas crenças jogadas às feras do ceticismo e do preconceito na arena do mundo indiferente. Temos de nos preparar para a guerra, e não é com espadas de borracha e armaduras de plástico que o teísta sobreviverá no campo de batalha argumentativo1.

Outra função da Apologética é a evangelística. Embora poucos possam discordar do papel desta em reafirmar a fé do cristão, muitos ainda diriam que é a argumentação é inútil como forma de converter o ‘descrente’. Diriam que é complicado, e, além disso, “eu já tentei antes e não deu certo!”. Esta atitude cômoda certamente não é a bíblica, pois é evidente que era procedimento dos apóstolos de debater em defesa da verdade do paradigma cristão, tanto para judeus para com pagãos – Atos 17:2-3, 17; 19:8; 28:23 são alguns exemplos.

Segundo Schopenhauer, o orgulho e a desonestidade humanas impedem uma discussão plenamente justa e limpa, pois “o interesse pela verdade (...) acaba cedendo ao interesse da vaidade” e as partes disputantes passam a lutar pela vitória, e não pelo esclarecimento2. Creio que aqueles que desdenham da argumentação evangelística já a usaram alguma vez e perceberam que o descrente permaneceu não-convencido, e daí retiram uma conclusão geral de que argumentação não tem efeito. Apesar disto representar bem o que ocorre em grande parte das vezes, o desânimo não deve abater-se sobre o apologista. Surge a pergunta: “Porque se preocupar com a pequena minoria de pessoas para quem a Apologética seria efetiva?” Primeiro, porque toda e cada pessoa é importante para Deus, lembrando que Ele também morreu por ela. Segundo, porque essa minoria, apesar de pequena em número, exerce grande influência: pense no exemplo de C.S. Lewis, ex-ateu que após converter-se, ficou conhecido ainda hoje como um dos maiores apologistas cristãos, tendo sido responsável direto ou indireto por várias outras conversões!

Sendo assim, pode-se afinal dizer que a Apologética destina-se àquela parcela de pessoas que responderão à argumentos racionais e evidências. Embora ela possa não ser a responsável direta pela aproximação com Deus, ela é importante para tornar o “ambiente mental” disponível para o Cristianismo. Existem inúmeras pessoas hoje em dia que tornariam-se cristãos, apenas se lhes fosse mostrado que esse paradigma é plenamente plausível e coerente, em vez do puro “desejo emocional de que seja verdade” que é veiculado pela sociedade como se fosse algum sinônimo de “fé”. Estas pessoas estão dispostas a seguir o conselho de Sócrates e “seguir o argumento aonde ele nos levar”: buscam a verdade, não importa qual ela seja – material ou não. Uma vez que percebem a coerência da crença em Deus, estão abertos à ter um relacionamento pessoal com Ele.
Eu era uma dessas pessoas. Fui agnóstico por certo tempo, admitindo que não tinha uma resposta para a pergunta “Deus existe?” e procurando a resposta3... Encontrei-a no Cristianismo.

Concluo este chamado com as palavras em 1 Pedro 3:15: “...Estejam sempre preparados para responder a qualquer pessoa que lhes pedir razão da esperança que há em vocês.”



1
. Ver Efésios 6:11-18. Logo no verso 14, fala-se de “cingir os lombos com a verdade”; verdade que o cristão deve conhecer, para não cair em falácias advindas da frente secular.
2. SCHOPENHAUER, Arthur. A Arte de Ter Razão. 3. ed. São Paulo: Ed. WMF Martins Fontes, 2009. p.4
3. Uso aqui a definição do neo-ateu Richard Dawkins para aquele agnosticismo:
Agnosticismo Temporário na Prática, ou ATP, é o legítimo em-cima-do-muro, quando realmente existe uma resposta definitiva, para um lado ou para o outro, mas para a qual ainda não temos evidências (ou não compreendemos a evidência, ou não tivemos tempo de ler a evidência etc.) ...Há uma verdade lá fora, e um dia esperamos conhecê-la, embora no momento não a conheçamos.Esse tipo difere do “Agnosticismo Permanente por Posição”, também conhecido como apateísmo. (DAWKINS, Richard. Deus, um Delírio. São Paulo: Ed. Companhia das Letras, 2006. p. 60)



3 Responses to "Apologética?"

  1. Só gostaria de parabenizar a equipe por abrir espaço para este tipo de texto, também... Minha preocupação, nos meus primeiros textos, era de como leitores de blog, acostumados com leituras mais leves e rápidas, reagiriam a mensagens bíblicas mais aprofundadas... Fiquei feliz que se deu espaço para estudo teológico TAMBÉM. Claro que só a letra não resolve nada, mas eu, como ex-ateu racionalista, considero a apologética até uma maneira de evangelizar!
    Que Deus te capacite e te use, em Nome de Jesus!

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  2. Incrível Kelvin, eu já sabia que você tinha talento, mas não tanto.rs Quisera eu todo nós pensássemos assim...racionalmente cristão!

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